O sentimento além da música: a subestimação do afeto feminino por divaspop
- clubdelaexp
- 30 de nov. de 2024
- 4 min de leitura
Atualizado: 3 de dez. de 2024
A validação de diferentes tipos de idolatria com um viés de gênero minimiza a profundidade
dos sentimentos expressos por mulheres
Por Júlia Regla

Fonte: Instagram / Reprodução
Empoderamento. Liberdade. Identidade. Três palavras que capturam o impacto das divas pop na vida das mulheres. Artistas femininas não apenas dominam as paradas musicais, mas também se tornaram ícones culturais que representam muito mais do que apenas as músicas que produzem. No entanto, há uma tendência de desvalorização dessa admiração, algo que frequentemente é visto com superficialidade, comparado com a intensidade emocional observada em outras formas de afeto, como o envolvimento com esportes ou figuras masculinas do entretenimento.
Se o universo de divas pop é muitas vezes ridicularizado, o dos esportes é o oposto. Visto de forma natural o envolvimento profundo dos torcedores pelo seu time e jogadores favoritos,os mesmos se emocionam, se estressam e, muitas vezes, vivem intensamente os resultados das competições - sentimentos que se igualam ao de fãs de artistas femininas. No entanto, a admiradora de uma diva pop é, com frequência, rotulada como ‘exagerada’, enquanto a torcida por um time de futebol é vista como um comportamento socialmente aceito e até esperado. Esse contraste revela algo mais amplo: a subestimação do envolvimento emocional feminino com suas ícones, particularmente quando se trata de figuras que operam fora dos padrões tradicionais de masculinidade ou esporte.
No fundo, o que está em jogo é a forma como a sociedade define e valida certos tipos de paixão, com um viés de gênero que minimiza a profundidade dos sentimentos expressos por mulheres.
A trajetória de fã de uma mulher que ao mesmo tempo é torcedora fanática de um clube de futebol
Entre os diversos lançamentos em 2008, um se destacou e marcou o início da ascensão de Taylor Swift no cenário musical: o álbum Fearless. Com o lançamento, a cantora não só impulsionou seu nome para o estrelato, mas também solidificou sua habilidade em contar histórias de forma emocional e acessível, conquistando fãs de todas as idades.
E foi assim que, aos oito anos, a paulista Caroline Santos (25) conheceu aquela que se tornaria uma de suas maiores inspirações. Os anos se passaram, novos álbuns foram lançados, mas algo não mudou: a conexão e identificação através das letras das canções. “Me identifico com ela, que mostra sua vulnerabilidade em suas músicas, mostra que está tudo bem você ser uma mulher empoderada, mas também que é normal ser sensível, sofrer às vezes ou demonstrar emoções demais”, menciona a fã que realizou seu sonho de ir em um show de Taylor Swift durante sua passagem ao Brasil em 2023.
Caroline aguardava há 14 anos o momento em que pudesse ouvir ao vivo a trilha sonora de sua vida. Para sua surpresa, o anúncio da vinda da sua cantora favorita ao país aconteceu no dia do seu aniversário, “foi o melhor presente que eu poderia receber”, relembra ela que garantiu o ingresso da The Eras Tour, a turnê que celebra todos os momentos da carreira de Taylor Swift. Desde então, o dia do show passou a ser um dos seus preferidos do ano, marcado por uma realização inesquecível e que por muito tempo pareceu ser impossível. No entanto, essa jornada de fã, que representa refúgio e fonte de força, também é marcada por momentos difíceis em que Caroline se sente ridicularizada e desvalorizada por sua admiração por uma diva pop.
Apesar do sentimento de fã ser genuíno e profundamente significativo para Caroline, essa relação muitas vezes é subestimada por quem convive ao seu lado. Ela conta que, por trabalhar em um ambiente predominantemente masculino, frequentemente ouve comentários que a ridicularizam e menosprezam por sua admiração por Swift, mas prefere não entrar em discussões e segue firme, sempre deixando claro o quanto a cantora é importante para si. No entanto, embora isso não afete Caroline, muitas mulheres que expressam seus gostos pessoais, especialmente em relação a ícones pop, acabam sendo vistas como infantis ou menos sérias - fazendo as mesmas a se sentir desconfortáveis ou retraídas, levando-as a esconder suas paixões por medo de serem julgadas.
A sociedade brasileira, marcada pelo machismo e patriarcado, associa a feminilidade a características emocionais e à aparência, enquanto a masculinidade é ligada à racionalidade, força e poder. Nesse contexto, as mulheres frequentemente são ridicularizadas por expressarem suas emoções, enquanto os homens, muitas vezes, têm suas manifestações de força e racionalidade exaltadas. “Essa ridicularização pode fazer com que essa mulher sinta que seus gostos são inadequados e errados, o que pode gerar insegurança sob sua própria identidade”, afirma a psicóloga e mestranda em psicologia social pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Laura Vieira, que enfatiza que é necessário ‘pensar fora da caixa’ e normalizar que homens também podem gostar de divas pops e mulheres de futebol.
A The Eras Tour passou pelo Allianz Parque, estádio do Sociedade Esportiva Palmeiras, time
de futebol do coração de Caroline, que percebe uma diferença significativa na forma como é tratada dependendo do que expressa gostar. Quando fala sobre sua paixão pelo futebol, é levada a sério, sendo reconhecida e respeitada em seu interesse - o oposto do que acontece quando diz gostar de diva pop. “É uma diferença absurda. No começo de uma conversa, quando menciono que entendo de futebol, até rolam umas piadinhas, do tipo ‘se você é torcedora mesmo, fale o elenco do Palmeiras’, mas logo que percebem que sei do que estou falando, o respeito surge. Porém, quando o assunto é divas pop sinto que meu gosto musical não é tratado com a mesma seriedade”, comenta a fã.
O sentimento de pertencimento é natural ao ser humano, e há estratégias que podem ajudar mulheres a enfrentarem julgamentos e ridicularização dos seus gostos pessoais. “Ter resiliência é importante. É entender que é uma situação ruim e é possível transformar aquilo em algo que faça sentido, reafirmando suas escolhas sem se submeter ao julgamento do outro”, ressalta a psicóloga, que finaliza dizendo que uma alternativa é buscar grupos onde possam se conectar com pessoas que compartilham dos mesmos sentimentos, “assim a pessoa vai se sentir pertencente ao grupo, valorizada como indivíduo, além de fortalecer sua própria identidade”.
Caroline continua acompanhando e enaltecendo o trabalho de Taylor Swift, mostrando que
ser fã é, acima de tudo, uma forma legítima de expressar sentimentos e construir conexões. Inspirada por sua própria experiência, ela espera que outras pessoas que se sentem menosprezadas por demonstrarem afeto por algo que amam encontrem força para se afirmar, deixando de lado julgamentos externos e abraçando o que as faz felizes.















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