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“É muito difícil ser uma menina e ter todas essas expectativas”

Atualizado: 5 de dez. de 2024

A necessidade feminina de agradar e a relação existente com os padrões comportamentais de gênero.


Por Júlia Dresch


Sejamos francos, a maioria de nós deseja (ou já desejou) ser gostado ou visto de forma positiva pelos outros. Esse comportamento começa, na maioria das vezes, na infância - seja na escola, no lar, ou demais ambientes sociais - quando desenvolvemos a necessidade de agradar para nos sentirmos queridos e amados.


Para a Dra. Marlene Neves Strey, professora de psicologia e pesquisadora de gênero da Universidade Feevale, a criança pequena necessita de amor, amparo e compreensão para se desenvolver adequadamente, tanto em termos psicológicos quanto comportamentais.


Existem, porém, pessoas cuja necessidade de agradar é tanta, que acabam sacrificando desejos e vontades próprias em prol do outro. Essa tendência pode, muitas vezes, passar despercebida ou ser confundida com um ato generoso. No entanto, um excesso de auto-sacrifício pode ser prejudicial à saúde mental, podendo resultar em uma dependência de outras pessoas.


Para a pesquisadora, em ambientes acolhedores, a criança terá espaço para experimentar atitudes que agradam e desagradam. Em ambientes inflexíveis, aprenderá a esconder o que gostaria de fazer, dizer ou pensar. No contexto de lares opressivos, Marlene comenta que diante da situação em que é colocada, a criança acaba desenvolvendo esta necessidade a fim de se sentir acolhida. “As diferentes tentativas de agradar podem levar à confirmação de que realmente é necessário agradar para ser amada, ou, então, quando mesmo tentando agradar não se sentem amadas, podem desenvolver sentimentos de inferioridade ou de ódio”, diz a pesquisadora.


Mas como diferenciar esse comportamento? Na língua inglesa existe um termo utilizado para descrever aqueles com necessidade de agradar, os chamados people pleasers. Alguns exemplos de padrões comportamentais são: ignorar os seus interesses pessoais em prol dos outros, dizer aos outros o que eles querem ouvir para evitar conflitos, ter dificuldades em demonstrar falta de limites pessoais, pedir desculpas excessivas, entre outros. 

Tenho necessidade de agradar?


Betina Ludwig/Arquivo pessoal

É fato que todos são suscetíveis aos impactos de relações pouco saudáveis, porém também é de conhecimento comum que as mulheres são educadas, desde a infância, a se adaptarem a normas sociais, tornando-as mais vulneráveis aos perigos de agradar às pessoas em excesso. Betina Ludwig comenta que, para ela, a necessidade de ser aceita começou na escola, quando fingia gostar de coisas que não refletiam sua personalidade para conseguir ser aceita e participar de grupos. “Acredito que isso seja uma necessidade de agradar que já nasce com a gente, sabe? Começa com a gentileza, mas, ao longo do tempo, a gente tenta agradar ao máximo para evitar conflitos”.  


Para muitas mulheres, o people pleasing se tornou uma parte da sua identidade, muitas vezes enraizado nas expectativas sociais e nas normas de gênero. Isso porque, historicamente, as mulheres têm sido vistas como seres inferiores aos homens e postas em um lugar de obediência e submissão. Segundo Marlene, a partir disso, “as mulheres passaram a ser vistas como frágeis, dóceis, submissas, necessitando de orientação e comando. Essa definição de mulher está na base dos estereótipos de gênero que descrevem o que e como devem ser as pessoas em função de seu gênero”. 


Isis Joner/Arquivo Pessoal

Para Isis Joner, esse comportamento iniciou de forma similar ao de Betina, uma necessidade de agradar professores, colegas e amigas, a fim de se encaixar socialmente. No entanto, a narrativa de Isis tomou outro rumo quando foi diagnosticada com autismo. “É muito difícil ser uma menina e ter todas essas expectativas. É muito difícil ser uma menina autista e não entender essas expectativas. [...] Então, é muito mais difícil agradar quando tu não sabe o jogo que tu tá jogando”, comenta.


Uma pesquisa realizada pela YouGov, empresa internacional de pesquisa de mercado, interrogou mil cidadãos adultos americanos em 2022 sobre people pleasing. As perguntas são focadas no comportamento de querer agradar, variando entre uma avaliação pessoal (você se descreveria como people pleaser?), a partir da visão de outras pessoas (você acha que outras pessoas na sua vida te descreveriam como people pleaser?), os impactos desse comportamento, entre outras. 


Entre os respondentes, 56% das mulheres dizem se ver como people pleasers e 38% acreditam ser vistas dessa forma por outras pessoas. Já os homens, 42% se descrevem desta forma. Ao serem perguntados se ser um people pleaser tornou suas vidas mais fáceis ou difíceis, 14% do público feminino acredita ter facilitado, enquanto que 47% afirma ter dificultado. Para os homens é o contrário, 35% acredita ser mais fácil e apenas 26% considera ser mais difícil.


Devo ser boazinha?


Gostaria de pontuar mais uma diferença dentro desta temática: ser gentil e ser boazinha. No desenvolver da criança, quando ela está aprendendo quem ela é, o que gosta, o que pode e não pode, etc., costuma-se definir os padrões comportamentais aceitos entre os gêneros desde cedo. Meninos são associados a agressividade e comportamentos assertivos. Enquanto que de meninas é esperado - e incentivado - que sejam boazinhas. “Um menino pode ser agressivo, desordeiro, mas também poderá ser um gênio, um líder. Junto ao ‘boazinha’ das meninas, virá o esforçada (nunca uma gênia), colaboradora, seguidora fiel (dificilmente uma verdadeira líder)”, comenta a pesquisadora. 


Isis diz ter aprendido, agora adulta, que a forma como sacrificava seus próprios limites não era apenas por gentileza.  "O mundo junta ser boazinha, ser querida e ser simpática a ser gentil, mas não são as mesmas coisas. A gente precisa fazer essa separação por nós mesmas, porque a sociedade nos ensina que ser 'boazinha' é ser gentil e tu não ser uma pessoa gentil é algo ruim, que não pode ser feito - principalmente sendo menina”.


Por fim, espero estar certa ao pensar que esse padrão está se desfazendo aos poucos. Seja em mulheres adultas, que cresceram acreditando que a opinião alheia valia mais que a sua própria, ou na nova geração de meninas. Pois, como pontua Marlene, “lentamente as mulheres estão conseguindo sacudir a poeira dos estereótipos de gênero, podendo ser mais elas mesmas”. Quanto à Betina e Isis, ambas dizem saber lidar melhor com agradar e, principalmente, desagradar.  “Hoje, tenho uma noção maior e entendo que desagradar faz parte da vida”, comenta Betina. Isis complementa esse pensamento: "Foi difícil entender que não interessa o quão boazinha tu seja, o quão querida, o quanto tu agrade aquela pessoa, tem gente que só não vai gostar de ti".

 
 
 

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