top of page
Buscar

Vivendo de Saudade

Atualizado: 3 de dez. de 2024

O que fazer quando não há mais o que fazer?


Por Eduarda Souza


Fonte: Instagram/Reprodução


Historicamente, mulheres foram vistas como excessivamente sentimentais e dramáticas, principalmente quando o assunto era o luto. Nas palavras do historiador Georges Duby (1919-1996), eram as mulheres que, na Roma Antiga, cuidavam dos corpos, mas eram impedidas de expressar sua dor por muito tempo. O luto deveria durar, no máximo, um ano.


Você já perdeu alguém querido e, ao tentar falar sobre isso, temeu que seus sentimentos fossem invalidados? Se sim, saiba que você não está sozinha.


Durante séculos, as mulheres foram forçadas a desempenhar papéis preestabelecidos, como as "intercessoras" nos funerais, e muitas vezes tiveram seus sentimentos suprimidos, como se a dor precisasse ter um prazo para acabar. No entanto, a dor da perda é algo que não tem cronômetro. Ela é avassaladora, e não existe um manual de como lidar com a ausência de alguém tão importante.


O Luto de Anna Beatriz Gomes Lessa


A jornalista e criadora de conteúdo Anna Beatriz Gomes Lessa encontrou uma maneira de

lidar com a dor da perda de seu pai, Gilberto Gomes, o Bebeto. Ele faleceu em setembro deste ano, mas, antes disso, Anna já escrevia cartas emocionadas, compartilhando seu dia a dia com ele em vídeos e mensagens.


Natural de Itapajé, Ceará, Anna começou a escrever durante a pandemia, como uma forma de entender o que sentia e compartilhar com sua psicóloga. O que começou como uma maneira de organizar seus sentimentos logo se transformou em poesia, documentários e músicas.


Em 2024, Anna se mudou para Brasília. No Dia dos Pais deste ano, postou uma homenagem a seu pai nas redes sociais, com fotos e frases dele. Dois dias depois, a tragédia aconteceu: Bebeto faleceu.


A dor da perda veio com um grande desafio. Anna estava a mais de dois mil quilômetros de distância. "E agora? O que fazer de tão longe?", se questionou. Sem tempo para chorar, ela teve que ser prática: organizou o velório, contatou a família e cuidou de todos os detalhes. Eu não podia simplesmente sentar e chorar. Tinha coisas da vida para fazer", disse.


No velório, rodeada por mulheres, ela se sentiu pronta para chorar. Sentiu que havia cumprido sua missão. Mas nos dias seguintes, ao olhar para sua mãe e o comércio da família, Anna se viu perdida. Foi então que retomou sua escrita, mas agora para seu pai. Suas cartas se tornaram um desabafo, uma maneira de processar a saudade, os medos e as angústias.


Ela questionou: "A gente sempre se pergunta ‘e agora?’, mas também tem que se perguntar ‘E depois?’". A dor era imensa, mas ela começou a entender que sua vida continuaria, mesmo sem a presença física de seu pai. "Minha família vai crescer, vou adotar novos cachorros, vou crescer profissionalmente... e não poderei contar isso para ele", pensou. "Ele não pode me ouvir, mas eu posso escrever!" Nascia, assim, o quadro "Cartas pro Bebeto".


A Recepção do Público


O conteúdo de Anna, inicialmente compartilhado apenas com seus seguidores, alcançou um número surpreendente de pessoas. Muitas se identificaram com sua dor, e o relato de sua perda passou a tocar muitas outras histórias.


Suas produções criativas — frutos da escrita diária, que ela chama de "escrevivência" — se tornaram uma maneira de honrar seu pai e, ao mesmo tempo, encontrar um alicerce emocional. "Ele nunca mais vai ler nem ver, mas eu vou continuar escrevendo. A saudade está doendo, mas se eu parar de criar, eu estagno", declarou.


Essas cartas, que antes eram privadas, deram origem a um livro, que será lançado em janeiro, na cidade natal de Anna, Itapajé.


O Luto e a Arte


A psicóloga Emmanueli Musskopff destaca que o luto é um processo profundo de introspecção. Historicamente, as mulheres brasileiras desempenham várias funções sociais, muitas vezes esquecendo de si mesmas e da necessidade de expressar a dor. "A arte tem m papel fundamental nesse processo de autoconexão. A dor deve ser expressa, mas não deve nos consumir", afirma.


"Eu perdi meu pai para o céu, e hoje vivo de saudade", conclui Anna, com um misto de dor e resiliência.


Qual sentimento você não está expressando por medo ou repressão? Para todas aquelas que perderam alguém, desejamos forças para enfrentar esse momento difícil e coragem para explorar sua criatividade durante o processo, tornando tudo mais leve.


E assim, como a vida, que acaba de repente, sem avisos, esta reportagem chegou ao fim.

 
 
 

Comentários


vem fazer parte do nosso clubinho!
bottom of page